terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Preso por ter cão, preso por não ter, ou a esquizofrenia da opinião “pública”.

Preso por ter cão, preso por não ter, ou a esquizofrenia da opinião “pública”.

O “pênalti para as bancadas do Sr. Presidente da República tem algo de tragicômico, pois profetiza o que a opinião “pública” ridiculariza: ao terminar um mandato, um político fica na miséria.

“Se um ex-político volta a exercer atividade profissional no setor privado, então obviamente que é corrupto: o tráfico de influências irá obrigatoriamente existir quando (enquanto) o seu partido voltar a estar ligado (ficar) no poder.” Lembram-se do que se escreveu acerca de Jorge Coelho?

Concordo que não gostaria de ver um Presidente da República na posição de assalariado de uma empresa privada. Não pelo “raciocínio” acima mas porque considero que seria desprestigiante para as nossas instituições (No entanto, não me repugna que ministros e secretários de estado o façam). Por isso, as nossas leis prevêem que os antigos presidentes tenham direito a um espaço físico, secretária e motorista para poderem continuar a exercer condignamente a sua cidadania. Concordemos ou não com as suas posições, assim o têm feito o Gen. Ramalho Eanes, o Dr. Mário Soares e o Dr. Jorge Sampaio.

A capa do DN de ontem, com o subtítulo “Regalias” é, portanto, um suicídio coletivo. Ao tratarmos esta questão como regalias imerecidas, insinuando-se cleptomania, estamos a afugentar as pessoas mais capazes da política.

Este tipo de remunerações “ex post” é comum noutros cargos públicos que exigem independência e imparcialidade, tais como dirigentes de entidades regulatórias ou diretores de jornais. Infelizmente, também é comum a sua condenação em praça pública.

No primeiro caso, é desejável que as entidades regulatórias setoriais sejam dirigidas por pessoas sérias com conhecimentos específicos da área. Torna-se, portanto, necessário contratar profissionais muitas vezes vindo do sector privado. Mas estas posições são temporárias. Como garantir que este profissional vai ser isento com as empresas que, muito provavelmente, o irão contratar quando terminar o mandato? Continuando a pagar o salário durante dois anos, ficando essa pessoa impedida de exercer atividade profissional nesse setor durante o mesmo período. O mesmo é válido em caso de demissão (voluntária ou não).

No caso de diretores de jornais, este mecanismo permite a um diretor ter a liberdade de expressão necessária numa democracia. (Lembro- me do caso do Sérgio Figueiredo, mas não encontrei nada no estatuto do Jornalista nem na Lei de Imprensa que o referisse. Se alguém tiver a referência...) .

Estes esquemas de incentivos estão mal desenhados? Tem falhas? Então corrijam-se. Mas não linchem quem respeitou as regras do jogo que lhe foram oferecidas.

PS: existe uma petição a exigir a demissão do Sr. Presidente da República. Parece que já tem 20.000 assinaturas. Recordo que em 23 de Janeiro de 2011, mais de dois milhões de pessoas assinaram uma petição para que o Prof. Cavaco Silva fosse PR por cinco anos. Mas sobre a democracia destas “assembleias populares” escreverei outro dia...

João Mergulhão

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Fundamentalistas e moderados

Se uma proposta que visa acabar com um buraco na lei, gera ruído por parte dos fundamentalistas em ambas as barricadas, isso para mim quer dizer que não pode ser tão má assim.
No entanto, confesso que os fundamentalistas do meu lado da barricada têm argumentos menos convincentes. Ao outro lado da barricada, digo: Calma! Quando Portugal estiver preparado, havemos de lá chegar.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O umbigo lusitano

O mesmo acontecimento, dois títulos, duas interpretações da mesma realidade:

i. Bolsas europeias sem ouvidos para a S&P

ii. Cortes de ratings já estavam nos preços, afirmam analistas

O primeiro é de um jornal de referência português. O segundo é de um jornal de referência brasileiro.

Esta discrepância na análise da realidade fez-me lembrar o Natal de 2010. Por essa altura, os meus amigos da banca em Londres comentavam: “A probabilidade de Portugal fazer default (e, por conseguinte, sair do euro) é de 20%”. Os meus amigos da banca de Lisboa rebatiam: “Que exagero!! alguma vez isso (apocalipse financeiro) vai acontecer? “. O mais engraçado é que, já nessa altura, os meus amigos de Bruxelas explicavam: “O que está em causa é mais do que o Euro: é a própria União Europeia!”

Três meses depois, esta era a capa da Economist.

Mas este não é mais um post da já clássica maldicência portuguesa: todos os meus amigos citados eram portugueses...

João Mergulhão

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Comunicação: a má, a boa e a social

Começo pelo fim: a comunicação social é essencial numa democracia. Em Portugal, tal como noutros países, a comunicação social tem ótimos profissionais, isentos e sérios. Não está, porém, livre de interesses económicos e políticos, mas essas sempre foram as regras do jogo.


Ultimamente, duas coisas têm me chamado a atenção nos media portugueses. Em primeiro lugar, a generalidade das notícias tem um teor depressivo. No Brasil, apesar de se falar muito em crise (“Que horror! O Brasil só vai crescer 3% este ano!!”), existem também boas novas. Mas o que me leva a escrever hoje não é o tom alarmista das notícias, pois isso sempre fez vender mais jornais, salvo algumas afortunadas excepções (como o 24 Horas). Em segundo lugar, e a razão desta pequena nota, são as cada vez mais frequentes “interpretações livres” de declarações. Tal qual estudantes de belas artes, alguns jornalistas têm alimentado o seu lado criativo com declarações de atores políticos. Já não são apenas os casos de jornalistas, que ao escreverem sobre assuntos que não dominam, reportam aquilo que erradamente assimilaram (a esses, não podemos pedir mais e devemos ensiná-los com humildade, na esperança de algum intercâmbio de conhecimento). A questão está nos jornalistas que, num misto de Dali, Picasso e Bosch, apresentam declarações fora de contexto, truncadas, distorcidas imprimindo nas “palavras proferidas” um cenário dantesco.


Mas, nem tudo vai mal na redação. A verdade é que algumas frases, mesmo que bem intencionadas, não deviam ser ditas por algumas entidades. Ou pelo menos, deveriam ser melhor explicadas. Chegamos assim ao início: a má comunicação. Todos procuram “sound bites” e como ouvi dizer no Brasil, “você levantou a bola, eu chutei”. A má comunicação existe, portanto, nos dois lados.


Finalizo com o que considero dois exemplos de boa comunicação. Do lado dos jornalistas, o artigo “Litemerer Rfaeani Aelu” de Ferreira Fernandes no DN de ontem (12/01/2010) explica bem um problema de má comunicação recente. Do lado dos políticos, marcou-me o discurso de David Cameron sobre a reforma do NHS (sistema de saúde Britânico): numa declaração de 30 minutos, emitida na integra e em directo pela BBC News, o Primeiro Ministro britânico pôde explicar, sem interrupções todo o projeto do seu Governo. Concorde-se ou não com essas propostas, foi possível percebê-las na totalidade, sem interrupções e referências taurimáquicas, ou a estados de espírito dos familiares.


Aparentemente o Sr. Primeiro Ministro fez ontem algo parecido na conferência do DN ao explicar as nomeações do seu Governo numa declaração sem direito a perguntas. O papel dos jornalistas será agora verificar a veracidade das estatísticas apresentadas. Desta forma contribuirão para que Portugal permaneça uma democracia, com todos os seus sistemas de controles.


João Mergulhão